A Transformação Digital nas empresas de transportes

O tema Transformação Digital é considerado um dos mais importantes, na atualidade das empresas. Isso devido a necessidade de adequação aos novos modelos de consumo, usuários cada vez mais conectados e a possibilidade de usar e explorar de novas tecnologias, até então não acessíveis, corroboram a sua relevância.

No segmento de transportes/logística, fora os desafios citados acima, há particulares como: exigências de regulamentação, infraestrutura de rodovias, concorrência, processos tradicionais e etc.

Com o surgimento de novos modelos de negócios, muitos provenientes de startups como, por exemplo, Uber e 99Taxis para transporte urbano e CargoX para cargas, aumentaram a competitividade e os riscos da não transformação digital.

Da mesma forma e por outro ângulo, observamos o sucesso de empresas que já deram seus primeiros passos e que hoje contam com uma rede de soluções, vinculadas a parceiros e muita tecnologia. Até mesmo órgãos como a Confederação Nacional do Transporte (CNT) iniciou trabalhos com o programa Conecta. Este com a finalidade de selecionar startups para desenvolver soluções para desafios no setor de transporte e logística do Brasil.

 

A Transformação Digital na prática

Diante deste cenário, CEOs tradicionais começaram a direcionar suas estratégias para o Digital, colocando a TI a frente do processo. É certo que cada empresa se movimenta de acordo com suas necessidades e ecossistema. Por esse motivo e para entender na prática, realizamos entrevistas com alguns protagonistas no assunto.

A seguir será descrito como essas grandes empresas se estruturaram, quais foram os impactos, desafios e o que esperam para o futuro.

Contribuíram para esse artigo os profissionais:

 

Os caminhos adotados

Começamos as entrevistas questionando sobre o porquê das empresas se adequarem rumo a transformação digital. As respostas se referiam as adequações a nova realidade mundial, onde tudo acontece em velocidade: novas tecnologias, Indústria 4.0, startups com soluções disruptivas, trabalho com dados e concorrência. Como foi bem pontuado por Pedro Neves: “… a adoção de uma estratégia digital não é mais opcional, é uma questão fundamental para a evolução dos negócios. Não podemos somente observar o mercado se remodelar…”.

Sabendo disso, por onde começar? Primeiramente, era necessário estruturar a área que endereçaria todo processo de transformação digital.

No Grupo Águia Branca

O Grupo, que já vinha de uma cultura inovadora, criou um laboratório denominado Vix Labs. A finalidade é ser um espaço para desenvolvimento de soluções inovadoras e de resolução dos problemas reais do mercado logístico. Além disso, o laboratório promove também conexões entre startups, fornecedores, comunidade acadêmica e colaboradores através de ações a exemplo do HackVix (hackton¹). O objetivo é criar, validar novas ideias, identificar novos negócios em um ambiente totalmente colaborativo, contribuindo para solidificar ainda mais a jornada digital da companhia.

Na Patrus Transportes

No caso da a Patrus Transportes, eles ainda não criaram uma espaço específico, mas a inovação permeia toda a empresa. No dia a dia, o time utiliza de ferramentas importantes como o Lean Manufactoring, do Kaizen ao A3, métodos para gestão, melhoria contínua e soluções de problemas respectivamente. Além disso, infraestrutura de TI em nuvem permite explorar potencialidades do mercado digital e a desenvolver projetos para o desafio de mobilidade urbana, onde as novas tecnologias de roteirização dinâmica os têm ajudado a cumprir com os prazos de entrega.

Outro exemplo é o uso de ML (Machine Learning) e IA (Inteligência Artificial) para planejamento operacional. De fato, as variáveis que impactam no transporte de cargas são muitas e impossíveis de serem correlacionadas por um humano. Em 2019 eles planejam criar um Comitê de Inovação para melhorar a avaliação dos impactos das iniciativas e priorização de recursos.

Na Tegma

Já a Tegma, em 2016 propôs uma quebra da estrutura de tecnologia em duas, alinhado ao discurso do Gartner, sendo uma parte para cuidar da sustentação do negócio e a outra para impulsionar a transformação digital (previsibilidade e exploração/inovação). Ambos sendo essenciais para criar valor substancial e gerar uma mudança organizacional.

Passaram também a observar o mercado de Open Innovation (inovação aberta), pleitearam o budget para que em 2017 fosse criado uma área de inovação inserindo assim a companhia no ecossistema e a denominaram TegUP. Empresa independente, com a missão de encontrar e acelerar as melhores startups de tecnologia na área de Logística no Brasil. Proporcionando também acesso ao networking da Tegma, laboratório real para testes, coaching e mentoria, apoio à gestão, espaço de coworking e investimento.

 

Os impactos percebidos

Sabemos agora como foram estruturadas as áreas de inovação dessas grandes empresas. Porém, quais foram os impactos percebidos? São eles:

  • Agilidade nos processos;
  • Melhoria dos controles internos;
  • Melhoria nas informações que enviamos aos nossos clientes (tracking da carga);
  • Engajamento, mesmo com a estratégia de TI Bimodal e áreas distintas a de tecnologia;
  • Impacto sobre a marca e imagem da empresa para os stakeholders;
  • Capacidade de atrair e reter clientes;
  • Compartilhamento de experiências com o mercado;
  • Acompanhamento em real time de tudo que está acontecendo;
  • Melhoria nos canais de comunicação/MKT;
  • Mudança de Mindset;
  • Possibilidade de errar e transformar o negócio.

 

Os projetos e os desafios

Agora sob a ótica de projetos, o que cada um realizou fora o que já foi dito e quais foram os desafios encontrados?

Abaixo as falas dos envolvidos captadas em Dezembro de 2018.

 

Manuel Landeiro – Superintendente de Transformação Digital e Inovação na Patrus Transportes

A migração dos coletores de dados para smartphones nos permitiu triplicar o número de usuários da solução e reduzir o custo em 70%. Consequentemente, este projeto gerou um grande impacto nos controles operacionais bem como melhorou a qualidade das informações para os nossos clientes.

O desafio era conseguir conferir eletronicamente 100% da carga, num volume crescente. Porém, sem chegar a um custo com equipamentos que fosse proibitivo. Além disso, precisávamos de novas funcionalidades, a exemplo do registro fotográfico, que o coletor de dados não dispõe. Frente ao desafio, propusemos a pesquisa de uma solução baseada em smartphones. Com o protótipo construído, apresentamos ao time operacional, que aprovou o avanço.

Para avançarmos, montamos um time misto da TI e Operações, com aproximadamente 16 pessoas. Eles participam do desenvolvimento, validação e implantação. Em seguida, desenvolvemos aproximadamente 260 funções de controle no sistema para atender todos os requisitos.

 

Pedro Neves – CIO da Tegma

Um bom exemplo de como pudemos aplicar o uso de startups em projetos tradicionais foi a escolha de uma destas empresas, que havia participado do programa teGUP em 2017 para compor um projeto para a automação de tarefas, na gestão de pátios. Com uso de mobile, a parte do projeto que foi confiada à startup foi um sucesso, bem como o resultado conjunto.

A decisão sobre o uso da startup, no lugar de um fornecedor tradicional, com software de prateleira não foi tão fácil. Por conta disto, foi realizado um monitoramento bem próximo, de todo o processo de implantação, face a importância e risco associado a esta escolha.

Tivemos uma grata surpresa ao constatarmos o que realmente prevíamos: eficiência maior que a planejada, com reflexos positivos para nossa operação e para nossos clientes.

Entendemos que contribuímos para que a startup ganhasse visibilidade, se fortalecendo com um bom contrato e pudemos cumprir com um dos objetivos da aceleradora – de promover eficiência na cadeia logística, por meio de projetos digitais inovadores.

 

Raphael Sbardelotti – Gerente de Inovação do Grupo Águia Branca

O V1app é um serviço de transporte por aplicativo com motoristas profissionais e frota própria.

Além disso, por meio do aplicativo, o cliente e/ou a empresa podem solicitar o serviço e gerenciar os atendimentos realizados.

Como o V1 app funciona:

  1. Inicialmente, para solicitar o serviço, informe o seu destino.
  2. Após a confirmação da viagem, veja as informações sobre o veículo que está a caminho. Acompanhe a chegada pelo mapa.
  3. Realize o pagamento da corrida com o cartão de crédito corporativo cadastrado ou boleto.
  4. Ao final do trajeto, avalie o motorista e, se desejar, envie sugestões de melhoria do serviço.
  5. O recibo é enviado automaticamente por e-mail para você e para o gestor da sua empresa.

O aplicativo permite acompanhamento em tempo real dos custos relacionados aos serviços prestados pela VIX. E além disso, contar com outros indicadores permitindo uma gestão mais eficiente da sua empresa.

Portanto, o mais desafiador foi sair de uma estrutura tradicional e ganhar velocidade. Até poder errar, garantindo a segurança e que todos envolvidos entendessem essa dinâmica.

 

O poder da inovação em tecnologia

Enfim, todas essas iniciativas refletem diretamente no mercado de transporte/logística de forma geral e muito tradicional. Porém, agora está acontecendo uma disrupção através da tecnologia e a inserção de novos modelos de negócios.

De fato, em um ecossistema extremamente competitivo, os desafios encontrados vêm desde:

  • as suas regulamentações,
  • viários problemas de infraestrutura,
  • fornecedores,
  • e principalmente, na experiência do cliente.

Este último mudou muito nos últimos anos. Atualmente, os clientes querem acompanhar sua carga pelo mobile, exige prazos, preços e etc.

Há muito em que investir para apoiar a perenização das empresas. Tudo deve ser feito de forma minuciosa, coletando dados, analisando no detalhe e de um jeito inteligente. Isso para que as ações sejam direcionadas e não mais em massa. Estamos falando de novas tecnologias como Analytics, Big Data, dentre outras.

 

As vantagens da transformação digital

E falando de futuro, a continuação da transformação digital, vemos algo em comum. Assim como Manuel Landeiro pontua: trata-se de “um caminho sem volta” e a “usar a tecnologia para reduzir custos, otimizar processos e trazer uma melhor experiência para os nossos clientes”.

Da mesma forma, uma observação interessante do Pedro é que “… precisamos estar aptos para provocar nosso próprio modelo de negócio, com inovação e agilidade de uma startup, combinadas com a robustez e experiência de uma empresa consolidada no mercado. “. Essa é a máxima.

 

O futuro é agora

O inconstante e inovador é a transformação digital não para os próximos anos, como anteriormente planejávamos. É como diz Raphael “é no próximo mês” e acrescenta: “trazer mais inteligência, processos ágeis, tudo como um gatilho para novos projetos e em atender as necessidades e expectativas dos clientes”.

De fato, fica evidente e comum entre as empresas, é que todas estão da sua forma endereçando soluções para suas companhias e mercado de transporte e logísticos. Logo, além dos vários momentos que foram expressas a necessidade de ir em busca de parceiros como startups, meio acadêmico e provedores de soluções afim de que o outro trouxesse algo novo aos olhos dos interessados.

Portanto, para o parceiro existe um grande desafio em traduzir o que a empresa precisa, qual o contexto e vincular soluções aderente aquele negócio, de forma rápida, se comprometendo com toda cadeia de valor.

 

Nota de agradecimento: Em meu nome quero agradecer aos entrevistados que se dispuseram com tanta atenção e generosidade na construção deste artigo que tive o prazer de escrever.

 

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